Complexos, questionadores e ricos em ironia. Assim são os contos e romances do nosso maior escritor. Justamente por isso eles podem e devem ser trabalhados a partir do 3º ano - para permitir que as crianças conheçam textos clássicos e aprendam a apreciar a literatura de qualidade
Para muitos professores, pode parecer impossível trabalhar nessa faixa etária os textos de Machado - considerados difíceis e muito refinados. Sem contar os enredos, antigos demais para agradar aos pequenos e jovens leitores. Um engano. A obra machadiana é extensa e inclui uma série de contos perfeitamente compreensíveis do 3º ano em diante, além de romances saborosos, com uma linguagem bem dinâmica, rica em ironia e que prende a atenção das classes do 6º ao 9º ano. "Autores como ele têm um papel muito importante na formação de leitores literários e devem ser apresentados desde os primeiros anos do Ensino Fundamental", garante João Luís Ceccantini, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
É por meio dos clássicos, como é o caso dos livros de Machado de Assis, que crianças e adolescentes passam a compartilhar referenciais lingüísticos, artísticos e culturais que permitem a eles estabelecer vínculos com as gerações anteriores e se integrar à cultura. Clássicos, como definiu o escritor italiano Italo Calvino, "são aqueles livros que chegaram até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes)".
A qualidade da narrativa, a complexidade com que conf litos são nela expostos, a força das idéias que transmitem e os questionamentos que suscitam dão esse status a muitos dos escritos de Machado. O autor se destaca ainda por conseguir unir o erudito ao popular de forma única. Ele revolucionou a cultura nacional. Mulato, gago e epilético, em pleno período escravocrata, se tornou admirado e respeitado nos mais nobres salões da corte, contando histórias que ajudaram a moldar a noção que temos do que é ser brasileiro (leia mais sobre ele no quadro da página ao lado). Se atualmente é visto como um escritor erudito, um medalhão inalcançável, em sua época Machado era popular.
Clássicos na sala de aula
Ao ser lidos desde cedo, os clássicos são absorvidos de uma maneira muito especial porque "a juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares", definiu Calvino. E este é o papel da escola: possibilitar o acesso à ficção de qualidade de forma prazerosa.
"Ler os clássicos desperta o gosto pela viagem, pela imersão no desconhecido e pela exploração da diversidade. A satisfação de se deixar transportar para outro tempo e outro espaço, de viver uma vida com experiências diferentes do cotidiano", ressalta a escritora Ana Maria Machado, autora de diversos livros sobre a leitura na infância. Ter personagens com os quais o leitor se identifica é mais uma das características dos clássicos. "Como aquelas pessoas estão em outro contexto e são fictícias, nos permitem um distanciamento e acabam nos ajudando a entender melhor o sentido de nossas próprias experiências", explica Ana Maria.
O grande desafio é saber como trabalhar esse material em classe. "O ideal é utilizar meios que ajudem a seduzir os alunos", recomenda Heloisa Cerri Ramos, especialista em Língua Portuguesa e formadora do projeto Letras de Luz, da Fundação Victor Civita. A exibição de vídeos baseados nas histórias do autor pode ajudar (leia o quadro abaixo). Porém o mais importante é o professor contar a relação que tem com a obra, ler trechos dos quais possa falar com paixão e entusiasmo, mostrar os encantos (literários ou não) que chamaram sua atenção, as conversas com amigos que ela rendeu e quanto ele se identificou e descobriu sobre si mesmo em cada passagem.
Anderson Moço – A matéria na íntegra:http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/machado-classico-423617.shtml
05/05/2009
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